sábado, 1 de novembro de 2014

CHUVA




Horripilantes e cavernosos urros ecoam longamente, entremeados por ameaçadores clarões branco-cadavéricos que rasgam abruptamente a negritude de disformes e pesadas nuvens que anunciam ser portadoras de inimagináveis horrores de um céu desagregado. Parecem proclamar a chegada de um abominável e destruidor deus da morte.

Morte que se dilui em vida. Água. Aliviando esse assustador estado de tensão, chega, redentora, a chuva.

Chove o céu seu choro, soro divino. Desabafa, deságua sua mágoa. Verte seu riacho, água abaixo, pulverizando e distribuindo indistintamente seu frescor, diligentemente represado, anuviado nas alturas.

Provê com seu opulento aleitamento todo o ser a que, amável, incansável, oferece o seio flacidamente ereto, placidamente repleto. Farto, fértil, forte, tenro, terno, eterno, etéreo.

O concorrer das nuvens espreme massas recheadas de umidade, produzindo uma explosão de pingos que se espalham e tomam uma fatia do espaço, compondo uma paisagem liquefeita.

Representa muito mais do que uma nova condição de tempo ou uma determinada categoria meteorológica. Sua chegada delineia um contexto de melancolia resplandecente. O contraponto do sol, não uma oposição a ele. Afoga e afaga a claridade abusiva em sua névoa moderadora. Contemporiza o estado de alegria efusiva do astro flamejante, propondo uma introspecção contemplativa. Fecundada por seus raios, dá a luz à luz multifacetada em forma de um arco mágico e colorido a celebrar o anunciado casamento de viúva.

O calor abrasivo que ela atenua, paradoxalmente lhe confere vida, revertendo para a superfície a mesma água que é por este extraída dos mares e rios em direção às alturas, e a alimenta, num ciclo infindável que, sem se renovar, renova a vida do planeta. Um vai e vem interminável e repetitivo, cuja mera assiduidade proporciona a festa da existência.

Numa afronta às determinações graves da gravidade, o desmoronamento da colossal massa de água doce dá-se e desce suave, afável, sorrateiro, homogêneo, esmigalhado. Turbilhões de bilhões em gotas, dócil mas vigorosamente gotejadas, em dosagens maternais ao solo enfermo e febril, carente de cuidados. Quase que um carinho.

Misteriosa, obscura, incorpórea, carrega o espírito do conjunto em sua natureza. Cada pingo transporta um pingo de sua índole. Só avaliamos suas reais dimensões, forma e grandeza, vendo-a agrupada ao longe, onde os bilhões rendem-se à sua integralidade unificadora. Vislumbrando-a qual uma nuvem que o céu oferece ao solo. Imerecida e abnegada bênção contra as ressecadas torpezas terrenas.

Ao penetrar em seu interior fosco, perdemos essa perspectiva totalizante. Chovemos por dentro, com ela. Ao sermos engolfados, somos a ela, efetivamente, apresentados e com sua intimidade passamos a interagir. Tateamos sua intangível essência, ao sentir sua delicada liquidez resvalar em nossa pele, aliviando-a de sua rispidez.

A desidratada civilização determina que dela devamos nos resguardar, presumindo-nos tolamente ameaçados pelo mesmo líquido miraculoso de que somos feitos e que nos sustenta. O âmago da vida. Ao dela nos apartar, apartamo-nos de nós mesmos. Do ambiente natural “hostil”, isolamos nosso corpo, alojando-o em vestes, capas e botinas. Resguardamo-lo sob surreais e esquálidos artefatos impermeáveis. Seu toque molhado, lambido, ao vencer essa precária proteção envoltória, em busca de nossa pele, revive-nos a temida animalidade original, reacendendo perigosos instintos primitivos que desmantelam os fundamentos de nossa asséptica segurança civilizatória.

Yinizando gentilmente o ar árido, rude e químico, estende com seu doce pranto um manto protetor sobre o solo carente, ensopando, empapando e enlameando a terra. Do pó estéril, compõe um rico e nutriente bolo argiloso. Refaz com sua sobriedade digna e altiva, a vida tênue constantemente ameaçada pelo cáustico fustigar da irradiação solar. Da externa e eterna ameaça de deserto, resgata a condição de oásis.

Engravida, com sua feminilidade ativa, a terra tórrida, encharcando-a, fertilizando-a, preenchendo seus poros com o sêmen da vida. Faz, do esterco fétido, balsâmico maná. Um carinho às folhas que se fartam e se regozijam agradecidas, engrandecidas, ensandecidas, saciadas. Úmida e ‘útera’ proteção.

Vindo a ressaca, o mundo pulsa úmido, vívido, lambuzado, embriagado e entorpecido. E a vida inoculada brota e espoca febrilmente, exalando um odor inebriante.

Intermitentes e sincopados, os pingos espalham-se e arriscam, ariscos, sem cerimônia, uma incursão pela cidade estorricada e embrutecida pelo asfalto. O chão de cinzas, tingem de cinza. Cinza shocking. Lavam a cidade de suas mazelas incrustadas e encravadas. Curam temporariamente a urbe de sua urbanidade, brindando-a com o estado campestre de cachoeira.

Gotas que, caídas na couraça impenetrável, impingida ao solo pelo betume e pelo piche, divisores de águas, correm, escorrem, escorregam, ‘côrregas’, muitas vezes desesperadas, desamparadas, desesperançadas e frustradas, sem poder cumprir, a contento, sua vocação redentora ante a artificialidade dos domínios do homem embrutecido. Chovem no molhado.

Mas sua passagem não deixa de deixar marcantes marcas estéticas, fazendo refletir e multiplicar faróis, luminárias, spots, neons, num caleidoscópio que firma o firmamento estrelado no desorientado asfalto. Não podendo vencer sua rigidez impermeável, orna-o com suas tinturas. Zomba de sua sisudez. Debocha de sua perenidade arrogante com a fugacidade tempestiva e insubordinada de sua índole.

Nos vidros, gotículas em filete freneticamente saltitam travessas, transversas, compondo pinturas móveis, desfocadas, indecifráveis e oníricas que ressuscitam de nosso inconsciente imagens imaginárias, que a letargia cotidiana sepultara. Recriam e libertam as alegorias, formando telas fluidas impressionistas.

Envolvidos, cedemos a seu renitente chamado e entramos em sintonia com a sinfonia do tamborilar repetitivo, hipnotizante e insistente do cair de suas lágrimas copiosas, levando-nos a avalizar nossas inférteis chuvas internas.



domingo, 29 de junho de 2014

TRATADO DO PORÃO (Final)


No I Ching, além do Caldeirão, o único dos 64 hexagramas que se refere a objeto feito pelo homem é o de número 48, O Poço. Ora, o poço nada mais é do que primo de segundo grau do porão, guardando com ele alguns evidentes elementos comuns (buraco, escuro, subsolo). Diz o oráculo chinês: “Pode-se mudar uma cidade, mas não um poço (...). O poço representa a fonte que atende às necessidades primordiais dos seres, e permanece inalterada desde a mais remota antiguidade. Mudam-se os usos e os costumes, os estilos de comportamento e as expressões culturais, mas a forma do poço continua a mesma, simbolizando as necessidades imutáveis da existência humana”. Os atributos que o sagrado livro milenar associa ao poço poderiam ser perfeitamente imputados para o porão.

Assim como seu primo zen, o porão jamais deixará de existir enquanto a sociedade estiver fundamentada na célula mater da família, pois atende a uma carência básica desse grupamento humano. O porão não é um simples aposento do núcleo familiar. É a materialização da necessidade que as famílias têm de conservar parte do passado e não se desvincular de coisas que um dia tiveram serventia. Se hoje não são mais úteis por suas características originais, passaram a sê-lo por atenderem a uma nova necessidade. A de preservar algo representativo do passado, a fim de ajudar a fixar nossa identidade como seres viventes providos de memória e sentimentos de saudade e gratidão.

Segundo o Feng Shui, o porão simboliza sentimentos enraizados em nosso subconsciente. Pode representar ainda desejos reprimidos.  Assim como ocorre com esses sentimentos, não é algo para ser aniquilado, extinto. Deve ser mantido organizado, limpo e bem iluminado para impedir a fixação de energias negativas.

Tal como os coveiros, os advogados, as putas e seus filhos, os políticos, os porões são discriminados por todos mas ninguém pode viver sem seus préstimos. Desempenham um papel importante na sociedade. Lidam com coisas que não fazem mais parte do nosso cotidiano. O porão é o mal necessário, o patinho feio da casa, para onde são jogados os restos dos desejos. Sem eles, como poderíamos nos permitir protelar ou deixar de exercer nossas difíceis decisões de nos desapegarmos de certos objetos? Na dúvida: joga, não joga? Vai pro porão.

A cada limpa geral, os objetos úteis e bonitos ganham, por seus méritos, um lugar ao sol na residência. Os inúteis, feios, desgastados e quebrados vão para o lixo. Os restantes, que naquele momento, não se enquadram com precisão em uma destas categorias, vão para o porão. E dá-lhe a entulhar os 9 m3, o tamanho da nossa indeterminação. Os que dispõem de compartimentos com 18 m3, podem dar-se ao luxo de serem duas vezes mais indefinidos.

Se dispuséssemos de um espaço enorme para o porão, todo ele seria utilizado. O porão pode ser subterrâneo e subvalorizado mas jamais é subutilizado. Com assiduidade é mudada a disposição dos objetos nele contidos para ver se não entra mais alguma coisinha, de modo a otimizar sua ocupação. Cada centímetro cúbico é aproveitado para impedir que algo seja sacrificado. Trata-se de uma contradição: enquanto os ambientes mais nobres da casa, frequentemente mantêm espaços vazios para permitir a locomoção, dispondo-se os objetos distantes uns dos outros, o depreciado porão comporta-se como o próprio coração de mãe, servindo de guarda para tudo quanto é tranqueira. Cada pedacinho é disputado com unhas e dentes. Fosse ele dez vezes maior, dez vezes maior seria a utilização que dele se faz. Ou seja, o porão, além de criar o tamanho de sua própria ocupação, ou seja 100%, cria também o grau de indeterminação que nos é possibilitado ter. De onde se depreende que porões pequenos obrigam-nos a tomar decisões mais dolorosas.

Abriga os objetos que se situam no limbo próximo ao meio da escala, cujos extremos são o imprescindível e o lixo. Uma tênue região entre o necessário e o desnecessário. Não são suficientemente importantes para ganharem um lugar nas áreas mais nobres (nem nas menos) do lar. Mas, ao serem preteridos de todos os demais aposentos, a opção ‘lixo’ também é descartada. É cruel demais. Nossa consciência não consente com tamanha maldade. Acaba indo pro purgatório do porão, onde cumprirá castigo eterno por não ter logrado manter uma relação de intimidade com o senhorio, mas... merece uma segunda chance. Quem sabe no futuro?


(Texto extraído do livro O QUE DE MIM SOU EU)

À Cíntia




quarta-feira, 14 de maio de 2014

TRATADO DO PORÃO (2a PARTE)


Os porões fazem lembrar lugares furtivos onde se ocultam produtos do roubo, atividades ilícitas, fugitivos da resistência armada, vítimas de sequestros e cadáveres recém encomendados. Com esses escusos empregos que deles se faz, somado à habitual falta de cuidados e de limpeza em sua manutenção, acabam se constituindo em habitats perfeitos para baratas, aranhas, cupins, ratos e outros animais escrotos que sobreviverão à hecatombe nuclear.

Por outro lado, a ameaça do holocausto atômico pode vir a reabilitar esses execrados aposentos subterrâneos como última esperança de sobrevivência da raça humana, reserva de vida no planeta. Esse espaço agourento nem mesmo a radioatividade ousa invadir. Tal redentora perspectiva não é, todavia, suficiente para recobrar sua desgastada imagem ante as honoráveis famílias.

Ninguém pensa em mostrá-los às visitas. “E aqui o nosso lindo porão: latas de tinta, tênis furado, ladrilhos de banheiro, roupas velhas da vovó, desentupidor de privada, raticida, caixa de arruelas, uma mala sem alça, o sofá roxo rasgado, baralho de mico, LPs Xou da Xuxa, um bambolê torto, livros de aritmética, coleção Barsa juvenil, revistas Sentinela e Amiga, um mapa de Aparecida, três vidros de maionese vazios e enfeites de presépio. Adiante uma linda barata morta. Aceita mais um pedaço de bolo de tâmara?”

Alguns dão-lhes um fim mais digno, transformando-os em adegas ou estúdios. Uma exceção às regras dos porões, tanto que, quando é trocada sua finalidade, o nome ‘porão’ é imediatamente suprimido.

Nas antigas residências, o porão era item obrigatório, não apenas como local para guarda de objetos e mantimentos, mas também como refúgio, proteção contra intempéries e entesouramento de valores. A arquitetura moderna, mais funcional e minimalista, defrontando-se com a problemática da escassez de espaço, tentou relegá-lo aos porões da história. Todavia, percebe-se que outros cômodos, como o quarto de empregada ou a área de serviço passaram a desempenhar a mesma função de despensa, indispensável. O que demonstra que os tempos não extinguiram a necessidade que motivou sua concepção original.

Mesmo tendo o porão sido suprimido das novas residências, assim como o foram os sótãos (ainda populares em filmes de terror), como seus préstimos ainda eram requisitados, criaram nova versão, localizando-os, no caso de edifícios, em minúsculos espaços ao lado da garagem, possivelmente para sanar algum problema de engenharia. Aliás, esse é o meu caso. Conferi a condição de ‘porão’ a uma espécie de antro adjacente ao estacionamento do prédio em que resido, o qual cada condômino pode utilizar para depositar suas inutilidades.

Essa confusão de nomenclatura explica-se pelo fato de que o conceito ’porão’, outrora caracterizado pela sua subterrânea localização geográfica, passou, em alguns casos, a ser tipificado pelo ofício que desempenha. O porão, independente de sua localização, é apenas depositário de bugigangas e afins. Ou seja, pelos entulhos e bagulhos que nele se porão.


(continua...)

(Texto extraído do livro O QUE DE MIM SOU EU)

À Cíntia



sábado, 12 de abril de 2014

TRATADO DO PORÃO (1a PARTE)


Com respeito e orgulho, apresento o meu digníssimo porão. Mede ele 2 por 2, mais ou menos. Cada um dos 4 m2 do meu porão tem sobre si 2,20 metros de altura. O compartimento abriga, portanto, aproximadamente 9 m3 de ar e de luz. Luz e ar que foram quase que completamente expulsos para dar lugar a toda sorte de objetos provindos dos mais variados confins. A altura deve ser enfatizada, mais do que o é no resto da casa, ou melhor, naquilo que não é o resto. Porquanto ninguém personifica melhor a categoria ‘resto’ do que o supracitado. Frente a ele, até a privada da área de serviço ganha ares de nobreza. Na escala de importância dos aposentos, o pobre do porão é o permanente postulante à lanterna, rebaixado que já se encontra.


Ainda que relegado a uma condição subalterna, é, por uma dessas inexplicáveis contradições habitacionais, mais exigente naquilo que o concerne. Apesar de não discriminar dos objetos pretendentes a nele se expatriarem nenhum requisito quanto à procedência, coloração ou característica física, impõe a estes a clara especificação, não apenas das dimensões de comprimento e largura, mas também as da altura. Para garantir o visto de entrada no porão, têm tais objetos de apresentar, em seu passaporte, explicitado seu volume. Essa seleção  é rigorosa e não há favorecimentos.


Aprovada sua admissão, os objetos ganham, em sua nova moradia, literalmente, outra dimensão, passando a estamparem sua real importância tridimensional, mensurada em metros cúbicos. Despem-se e despedem-se assim de sua antiga funcionalidade e passam à condição comum de ‘trambolhos’.


Todos, independente de sua origem, têm o mesmo valor relativo, proporcional a seu tamanho. Valendo-nos da terminologia marxista, poderíamos afirmar que os objetos do porão ficam desprovidos de suas intrínsecas características físicas e utilitárias, responsáveis pelo seu valor de uso, sobressaindo-se o valor social do m3, determinado pela superestrutura associada ao estágio das forças produtivas do senhorio. Naquela micro-sociedade vigora um regime exemplarmente igualitário, comunista, sem classes. Todos são, por baixo, nivelados e equitativamente designados como ‘cacarecos’.


Sua característica principal, ao serem acomodados em seu novo lar, passa a ser seu tamanho, não mais sua serventia. Enquanto na residência de origem, a pergunta habitual que os introduzia era “combina?”, “é bonito?”, “é de qualidade?”, "é útil?", “é funcional?”, em relação ao porão, a indagação determinante passa a ser “cabe?”


Um tapete 3 por 3, por exemplo, deixa de medir os 9 m2 que garbosamente ocupava na sala. Ao atravessar a porta de serviço e adentrar no porão, decai à mesma humilhante condição cilíndrica de 0,12 m3 que originalmente desempenhava na loja onde foi adquirido, abatida a depreciação física que deve ter corroído a parte nobre de sua exuberância, no período compreendido entre as datas da sua compra e de seu amargo descarte.


Reza a lenda que, tal como ocorre em Toy Story, à noite, fora do alcance dos vigilantes e perscrutadores olhares humanos, os objetos inanimados ganham vida no porão. Talvez conversem entre si, rememorando, com saudade, os magnânimos momentos quando eram imprescindíveis e venerados. Cada um tem uma triste história a narrar a seus companheiros de infortúnio, que remonta da sua concepção, fabricação, elaboração, passando por seu uso, o glorioso apogeu, até advir o inexorável período de declínio e o debacle físico que antecedeu a melancólica situação em que se encontram. Assim como presidiários em celas contíguas no corredor da morte, à espera do sinistro e inevitável destino que os aguarda, trocam confidências, estabelecem vínculos e comungam da dor por estarem relegados aos limites daquele ambiente inóspito, esquecido e quase nunca acessado pelas vivas almas. Recordam-se dos tempos de esplendor, onde podiam ser, com orgulho, ostentados. Mas não cedem à desesperança. Para não caírem no mais negro desespero, sonham com um futuro auspicioso onde a mudança de tempos e os descaminhos imprevisíveis da moda possam reabilitá-los e recompor sua essencialidade, podendo ser, novamente, objeto de admiração e ambição, sob novas bases. Quem sabe, até como valiosas antiguidades.


Com tais qualificações, o porão não chega a ser propriamente um cômodo. É quase um incômodo. O que se passa em seu interior, é motivo de vergonha, como denotam as expressões pouco dignas ‘porões do sistema’ ou ‘porões da ditadura’. Muitas vezes, são palcos de rituais satânicos, sacrifícios e outras aberrações humanas que pioram ainda mais a imagem que se faz desse recinto já tão segregado, que, ainda por cima, digo, ainda por baixo, fica no caminho para o inferno.
  
(continua...)

(Texto extraído do livro O QUE DE MIM SOU EU)

À Cíntia



segunda-feira, 17 de março de 2014

RAIVA


 
 

Que raiva que a raiva dá!

Numa desatenção, num desleixo, num vácuo, num crescendo, ela surge. Calma. E furiosa. E, antes que eu me dê conta, toma conta.

Instala-se feito um vírus. Vem de fora, me come e me consome por dentro. Agiganta-se, murcha, morre. Ressuscita. Me toma de mim. Me tira do sério. Me tira do Sérgio.

Ora me paralisa, ora me impulsiona. Ora pra glória, ora pro abismo.

Sem raiva, mal faço. Com raiva, faço mal, de qualquer jeito. De qualquer jeito, mal me faz. Mal me faço.

Mau com ela, pior sem ela. Quem manda ela existir? Que raiva!

Me transtorna e me transforma.

Posso ser quem não seria. Posso ser quem não queria. Posso ser quem não podia. Posso ser quem não devia.

Afinal, sou seu dono ou seu criado? Seu carrasco ou seu capacho? Sou eu que tenho a raiva ou é ela que me tem?

Está no coração? Na mente? No cérebro? No sangue? No estômago? Na adrenalina? Na carótida? No miocárdio? Em cem trilhões de células? Raivosas.

Como tirar a raiva? Com calmante? Cidreira? Maracujá? Meditação? Oração? Simpatia? Terapia? Cirurgia? Lobotomia? Homeopatia? Cromoterapia? Radioeletrocardiolaringotraqueobroncoscopia?

Boto ela pra fora com a lágrima? Com a mordida? Com o soco? Com o suor? Fazendo amor? Grito de dor?

Só sei que é preciso tirá-la, extraí-la, extirpá-la exterminá-la... Externá-la, quem sabe?

Morrendo! Aí ela vai junto. Ou fica na alma. Me assombrando do outro lado. Um fantasma vivo (e raivoso) no mundo dos mortos.

Escrever é o que me resta. Vingando-me, discorro sobre ela. Pra deixar ela com raiva. Dou um trato, tratando dela, num tratado sobre ela. “Caracterização da raiva: análise e avaliação de parâmetros intraespecíficos de desempenho nas técnicas de degradação estrutural aplicadas sobre a prevalência do sistema regulatório de interações associado aos efeitos funcionais das ações e formulações ad hoc de di­versificação comparada em amostras sequenciais randômicas otimizadas no metabolismo humano”. Até que, da verborragia, ela se encha. E pare de me encher.

Vou me concentrar: não estou com raiva, não estou com raiva, não estou com raiva... JÁ DISSE QUE NÃO ESTOU COM RAIVA, PORRA!

Vejo um lago suave, calmo, azul, águas cintilantes. Da hora. Irado! A raiva não está. Onde foi parar? Cadê-la? Deve ter-se afogado? Submersa em águas tranquilamente revoltas. Um vulcão dentro da água. Onde cê foi parar, sua peste?

Raiva, devolva-me a mim.

Raiva, me deixe ser-me. Ou só me deixe.

E se eu contar até dez? Ou em dez ‘des’: desvanece, desaparece, desocupa, desgruda, despacha, desgarra, desatrela, desapega, desinfeta, desopila... Desgraçada!

Sai raiva, sai!

Ela não sai? Então saio eu.

 

 

Crônica extraída do Livro “O QUE DE MIM SOU EU”

 

 

 


 

Crônica extraída do Livro “O QUE DE MIM SOU EU”

 

 

 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A BUNDA




Qual o mistério do encanto da bunda? Uma conjugação de abundantes e harmônicos traços curvilíneos, relevo altiplano, textura sedosa e volume macio definem essa organização arquitetônica primorosa que resulta na obra prima maior da natureza, concedida por Deus ao homem. Ou melhor dito, à mulher, porquanto é exclusivamente a feminina que detém os primorosos atributos. A vitória definitiva da curva sobre a reta. Da dualidade sobre a ‘monotonia’. A negação do caos e da entropia. O ápice da criação divina. Afirmação inequívoca da existência de Deus e do Diabo, aqui pactuados e configurados numa mesma concepção temporal. Mistura de pureza com profanação. De carnalidade com divindade.

Ainda que desprovida de intenções malévolas, a perversidade faz parte de sua natureza, pelo mero ato de existir, independente de mostrar-se aos olhos. Quando revelada, provoca pensamentos libidinosos pelo que é. Quando oculta, provoca-os pelo que poderia ser.

Tal como a Lua, em que parece inspirar-se, inclusive na forma, a bunda permanece inatingível, mesmo após ser explorada e violada por mãos impuras. É feita para ser admirada e desejada . Jamais possuída.

Fisiologicamente, poderia ser considerada prolongamento tanto dos membros como do tronco. Harmoniza-se anatomicamente com ambos. Elemento indissociável da perfeita composição corporal que se molda, num acabamento irretocável. O detalhe que se sobrepõe com tamanha imponência à totalidade que a subjuga. Os demais componentes passam a ser adereços a adornar-lhe, em face da suntuosidade desbundante de sua presença imperiosa, perturbadora, retumbante.

A vagina, ao contrário, possui um contorno rude, acidentado, agreste, desarmônico, peludo e retilíneo. Sem atrativos estéticos. Estritamente utilitária e funcional, foi feita na medida para acolher o membro do homem. Fá-lo, fálico, vibrar, saciar-se e sucumbir. Cumpre estritamente a parte que lhe cabe no ritual animalesco do acasalamento conceptivo. A bunda, ao contrário, ainda que possa ser objeto de grotesca penetração, não tem vocação para proporcionar prazeres puramente mundanos e impuramente terrenos, como o de ser voluptuosamente comida.

Tal como uma divindade etérea, é para ser venerada e reverenciada respeitosamente, no alto de sua magnificência. Ser afagada, apalpada e mordida é o máximo a que se sujeita para que se possa presumir suas delícias inatingíveis. Sentir a fofura do seu toque apenas faz crescer o desejo insano de, sem se saber o que fazer com sua posse, apoderar-se de sua existência. Mergulhar em sua perdição.

O movimento das pernas ao andar provoca-lhe reflexivamente um balançar hipnotizante que faz do simples ato de caminhar uma sinfonia épica vertida pela alma carioca em loas pela bossa nova e em carniça pelo funk. O fato é que, de um ou de outro jeito, todos se rendem seduzidos ante o gingado que ela despretensiosa ou maliciosamente proporciona.

Paradoxalmente, essa obra prima da criação presta-se ao degradante ofício de abrigar o canal de saída do material rejeitado pelo organismo. É a porta do fundo do corpo. A garagem, a saída de serviço, onde têm lugar as inconfessáveis atividades submundanas. A passagem de escoamento da massa disforme de resíduos sem utilidade para nossa atividade vital. Algo que, dada a espécie de função fisiológica que exerce, deveria ser a parte mais repugnante do corpo, é contraditoriamente sua porção mais exuberante. Como Deus fez essa obra prima e lhe deu uma atribuição tão ignóbil? Mistérios da obra divina que, como limitados seres mortais, não nos é permitido compreender e menos ainda contestar, parecendo-nos, especialmente àqueles do sexo masculino, revestido de incomensurável despropósito.

Tampouco nos é permitido entender que essa formosura escultural cumpra o papel quase tão reles de sustentar e acomodar toda a conformação corporal numa mísera e, muitas vezes, desconfortável cadeira. O máximo que a ela se permite é o esteio apaziguador de uma almofada para tornar suportável o sacrifício que lhe cala.  Permanece por horas a fio aguentando o peso de todo o corpo enquanto esse exerce atividades diversas, descontraída e despreocupadamente, algumas vezes de mero entretenimento, alheio ao desconforto de quem o suporta. Sequer desconfia que alguns ambicionam loucamente assumir o lugar de tais cadeiras para terem o privilégio de sentir por alguns momentos o indescritível prazer sensorial de experimentar seu assentamento.

A bunda, ainda que com predicados tão soberbos, presta-se com resignação a tais papéis aviltantes. Não protesta, não reclama, não chia. Nem mesmo peida. Tem a humildade própria das grandes eminências. Aceita sua sina, indiferente aos olhos e aos julgamentos de todos. Trabalha servil e alegremente como a gata borralheira do corpo, conservando seus encantos ocultos no íntimo das calcinhas que a guardam.

Segue ela seu caminho, rebolando pelas estradas. Semeando fantasias, arrebatando corações, afogando gansos...

 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

PÉS


 
 
Divinos pés. Apoiados pelo calcanhar. Um sobre o ou­tro. Posição de descanso. Acomodados sobre uma pequena almofada que lhes retribui a maciez. Deixam-se ali abando­nar como joias raras expostas num trono acolchoado, para serem veneradas. Pérolas! Repousam eles soberanos, indolen­tes, indiferentes à própria majestade. Ao vê-los imponentes, reverencio-os com humildade.

Belos espécimes de pé, os do minha amada. Não bastasse um, dispõe ela de dois! A natureza gostou tanto de sua obra que reproduziu outro igual. Ou melhor, simétrico. Um, reflexo do outro. Companheiros, parceiros indissociáveis, perfilados lado a lado, combinam-se perfeitamente.

Embora vizinhos e íntimos, pertencem a distintos membros, clãs com tendências inconciliáveis. Um de direita, outro de esquerda. Ainda que afeitos e inseparáveis, jamais conseguem consumar sua união, devendo conformar-se em permanecer não mais do que bons amigos. Com meias in­distintas e seus correspondentes pés de sapato, ambos com o mesmo número e tamanho, mas cada qual com seu forma­to específico a determinar a pessoalidade decorrente de sua tendência. Ambos convergindo para dentro, como a querer reafirmar seu inexequível anseio por união.

Não obstante, um obstáculo se interpõe entre ambos. Um golfo intransponível, um longo vazio, a apartá-los eterna­mente. Sete pés de distância os afastam. Tão perto, tão longe. Uma insólita viagem através do tornozelo, subindo pelas per­nas, coxas, púbis, região glútea, dobrando-se o cabo da Boa Esperança e completando o périplo com o retorno pelo outro lado. Até encontrar seu pé metade.

Os dedos, prolongamentos terminais do pé, graciosa e progressivamente crescem em comprimento e largura, a par­tir do miudinho mindinho. Cada um deles mantém o mesmo padrão, com ligeiras variações, de modo a submeterem-se à harmonia e à perfeição estética do conjunto. A sensação de mudança dá-se apenas pela modulação do tamanho, um cres­cendo progressivo, até resultar no ápice do dedão. Do irretocável e definitivo protótipo, foram por­menorizados os detalhes. A dedo.

Transposta livremente para uma partitura, essa gradua­ção resulta numa peça orquestral. O compositor francês Ravel por certo se inspirou na sequência ascensional harmônica dos dedos do pé para escrever sua obra máxima, o Bolero, um ma­ravilhoso exercício de composição que privilegia a dinâmica do crescente. Uma elevação gradativa que arrebata o ouvinte, não pela variação melódica, mas unicamente pela mudança paulatina de intensidade sobre o mesmo tema, que se renova e se agiganta até o fortíssimo ‘gran finale’, auge representado pelo tronchudo dedão.

A proteção da meia não lhes rouba a graça. Antes, dá­-lhes uma graça e meia. Esta modesta e subestimada peça do vestuário consegue realçar as amenas e sublimes formas dos pés, homogeneizando o padrão da cor e da textura. Agasalha­-os, abrigando e preservando sua beleza dócil para que ela não se desgaste com a excessiva exposição às intempéries munda­nas e aos olhos gordos.

O sapato e a bota, ao contrário, acessórios pesados, en­formam, sufocam e comprimem seu delicado conteúdo, reti­rando parte de seu intrínseco encanto. Inserem em volta do pé uma membrana compacta de couro, plástico, borracha ou material sintético em substituição à sedosa pele que o reveste. Mas não se podem culpar os calçados. Desempenham eles a árdua função de blindar a fragilidade do pé contra a agressão áspera do solo irregular e pedregoso e da concretude e imun­dície das calçadas. São os parrudos guarda-costas armados do pé. Que deles não se espere mais.

Já os chinelos, mais leves e macios, feitos para caminhar dentro de casa, são um meio termo entre o acolhimento da meia e a rudeza do sapato. Sua função é menos a de proteger, mais a de acomodar os pés cansados. Deixa-os à vontade, para que possam exibir todo o esplendor de seu charme.

Quando libertos de qualquer proteção artificial é que os pés se afirmam de fato e de direito e podem manifestar-se em toda sua plenitude. Permitem-se-lhes assim apreciar a terna umidade do orvalho da grama verde, transmitindo para todo o corpo a agradabilíssima sensação dessa revigorante energia vital.

Sentindo o frescor da areia fofa, os pés descalços tam­bém se realizam, descobrem sua verdadeira natureza. A areia fina, ao recobri-los, convida-os a se entregarem. Quando, enfim, a ela se rendem, parecem abdicar de sua restrita e onerosa in­cumbência funcional para serem apossados pelo universo.

Tais sensações rejuvenescedoras são o bálsamo que compensa seu angustiante cotidiano. Durante sete dias por semana, prestam-se os pés servilmente a suster todo o peso do corpo por horas a fio, conduzindo-o para os lugares que determinamos sem os consultar, sem pagar pedágio. Brincar, pular, correr, guiar, bailar. Podemos até dispen­sar o carro e com eles fazer as coisas literalmente... a pé. Se caminhar, correr ou andar de bike são excelentes ati­vidades físicas, o crédito é todo do penalizado pé.

Após horas de requisições diárias, uns segundos de rela­xamento, ao chegar da noite, é o pouco que lhes é concedido em troca.

Deus criou cada um deles e disse: “Este será o pé. Que bela obra!”, orgulhoso de sua própria criação. E o pé ficou sendo pé. Cada um, simplesmente um pé. O pé básico. Como deve ele ser. Nada de mais. Apenas pé. Ao pé da letra.

Como os da Gata Borralheira, da lenda que glorifica o pé simples que conduziu a sua humilde dona pelo caminho da felicidade. Ainda que trabalhando duro, preservou Cinderela, sábia mas desinteressadamente, a graciosidade de seus pés, de tal sorte que o sapatinho de cristal amoldou-se-lhe como a uma luva, subjugando o enlouquecido príncipe que, após per­correr e vasculhar desesperado cada pé do reino, encontrou afinal o pé definitivo que lhe deu felicidade eterna.

Ao pé basta ser o que ele é. Belo em sua cândida singe­leza minimalista. Até no nome é modesto. Pé. Não poderia ser mais curto. Dezenas deles enfileirados, pé ante pé, não completam sequer uma li­nha de texto. Duas míseras letras bastam-lhe. Outras partes do corpo, como o esternocleidomastoideo, nem com vinte e duas conseguem dizer para que vieram ao mundo.

Esmaltes, tatuagens e sandálias incrementadas são abso­lutamente dispensáveis pois tentam ridiculamente aperfeiçoar o que a natureza já fez perfeito.

Impossível apreciar um lindo pé descalço sem sentir um impulso irresistível de mordê-lo qual um tenro, aro­mático e suculento peito de frango grelhado. Mas essa ave soberba não é para ser comida nem pode ser engaiolada. Deve estar liberta para encantar o mundo. E colocá-lo a seus pés.

O valor intrínseco do pé não pode ser apropriado. De sua exuberância é impossível tomar pé. Esta parte nobre do corpo deve sempre permanecer dentro do conjunto que o orna para exalar sua grandeza. Não seu odor.

Ao recostar-se no pé do meu amor, meu pé opaco, frio, sem graça e carente, fica mais vívido, acolhido, aquecido, feliz, por ter encontrado o verdadeiro par que o complementa. Ao lado dele, reencontra sua genuína e acolhedora morada, perdida após décadas de agruras e requisições.

Resta apenas observar fascinado, seu delicado e deli­cioso movimento de abrir e fechar os dedos, provocando pe­quenas, carnudas e saborosas ondulações na pele. Alongar-se, contrair-se, insinuando-se. Como uma mata hari inalcançável, faz sua pérfida dança de requebrar. E o mundo lhe faz reve­rência ficando sob o jugo de sua planta.

Pétalas. Acalma-me massageá-los sentindo sua pele se­dosa. Ao fazê-lo massageio meus dedos também. Cada ponto apalpado reverte o reconfortante ‘do in’ para as trilhões de células do meu corpo envolvido.

Beijo-os com amor, ao me deitar com eles.

Despedem-se.

Dão-me paz. Pés
 
 

Extraído do livro O QUE DE MIM SOU EU 



 
 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O SILÊNCIO DOS CULPADOS





 
SILÊNCIO DOS CULPADOS
 
De olhos fechados, sentado no banco da praça, tento buscar um lugar longínquo para repousar a felicidade fugaz que inesperadamente em mim aportou. Concentrado, procuro invocar o lago azul que, extraído de uma tela de Monet ou de alguma clareira interior, porventura exista entre os arquétipos ali assentados desde meus ancestrais.
 
Tento resgatar sons primitivos perdidos pela civilização que apôs sua marca sonora industrial estridente em nosso cotidiano voraz e bizarro. Talvez num plano mais profundo do meu ser, possa recuperar apriorísticos paradigmas e esquecidos sons angélicos ou evangélicos de harpas celestiais.
 
Abruptamente, um clamor vulcânico provindo das profundezas do inferno brada arrebatador:
 
“ATENÇÃO, ESTE VEÍCULO ESTÁ SENDO ROUBADO E É MONITORADO PELA CAR SYSTEM”.
 
Sábias palavras que vaticinaram o martírio anunciado por megafones, alto falantes e toneladas de decibéis que crescem na velocidade da tecnologia eletrônica de áudio, da estupidez amplificada e da ausência de normas e de costumes não invasivos.
 
Ao lado da moto que anuncia histriônica estar sendo roubada, pessoas passam indiferentes como se lá não houvesse mais do que um mendigo escalpelado ou um cadáver em decomposição. Todos cúmplices, impotentes, surdos e silenciosos do barulho que desaba desagregador, paquidérmico.
 
Chamado a responder aos contínuos brados de alarmes falsos, sou sequestrado irreversivelmente do meu interior protetor. O tranquilo e bucólico lago azul foi varrido pelo tsunami cataclísmico que o extraiu permanentemente da agreste paisagem urbana e do imaginário corrompido do homem robotizado.
 
Meus ouvidos tornaram-se reféns indefesos de curaus, morangos de Atibaia, bancários arregimentados, sem-teto desalojados, professores espoliados, ciclistas atropelados, maconheiros encarcerados, afrodescendentes discriminados,  pastores endemoniados, pregadores exaltados, torcedores alucinados, motoqueiros turbinados, oradores encolerizados. São ambulâncias, bombeiros, britadeiras, bate-estacas, celulares,  aspiradores, aviões, rojões, raves. Todos concorrem para adentrar pelo gargalo estreito da minha cavidade auricular, desprovida de filtro, para atingir brutalmente a delicada membrana timpânica que, em silêncio, só implora uma nota dissonante de Satie.
 
O espaço sonoro gratuito foi loteado. O silêncio original foi estuprado por funkeiros e rappers tresloucados que, com seus alto falantes e sub woofers, requisitam o monopólio das ondas sonoras, embrutecendo nossa sensibilidade com a sua falta de, desconstruída silenciosamente em gerações de opressão e marginalização social. O pancadão dominou as periferias e à exclusão social seguiu-se a exclusão do sossego.
 
O silêncio tornou-se um conceito idílico, abstrato, surreal, inalcançável na superfície deste esfacelado e estuprado planeta.
 
A natureza, em sua sapiência, criara o fundo musical básico e delicado para nos acolher em seus domínios com ondas batendo, ventos sibilando, pingos gotejando, grilos trilando, pássaros gorjeando. A insatisfação e a arrogância do homem fizeram-no impor sua própria trilha sonora, amplificando os decibéis de sua insensatez até os píncaros da sua própria suportabilidade, em detrimento do seu olvidado bem estar. Milênios de escabrosas práticas anticivilizatórias levaram-nos à mais absoluta barbárie estereofônica.
 
A pureza sonora foi irremediavelmente vilipendiada por hordas de hunos, hackers, hitlers, hulks, hooligans e hardcores. Homens, enfim.



(adaptação de crônica publicada originalmente no livro
 “O QUE DE MIM SOU EU”)